23/10/2015

Pobreza


[ensaio]

Pobreza

Quando todos ceiam e vêem novelas na caixa mágica no quentinho do lar, outras vidas se desenrolam na magreza da rua. A sobrevivência é uma luta que fustiga outras gentes, desperdícios da sociedade competidora. São os excluídos, os proscritos, na maioria resultado da ignorância, da cegueira, da inoportunidade de viver no conforto comum. Talvez se trate do resultado das suas escolhas, de oportunidades perdidas, de opções infelizes. Certos grupos, quadrilhas do mal, organizam constantemente o próximo assalto no silêncio de muitas noites ou na perturbação de outros movimentos enquanto o sol percorre o dia. Tudo se move numa roda desorganizada, dando continuidade às frustrações cívicas. Enquanto uns trabalham, outros dormitam, não importa onde e como. À margem, nos caixotes do lixo, residem os desperdícios do supérfluo, quase sempre reaproveitada pelos pobres da nossa distracção. São os da rua, os que vivem na solidão, que encontram nos contentores as vitaminas desperdiçadas de alento à sobrevivência, continuam à espera de um outro fim, ou quando muito outro princípio de esperança. Os restos da nossa indiferença constitui para estes indigentes a justificação para viverem e sobreviverem no caos existencial. O excesso da nossa anarquia de sentimentos, da nossa petulância, faz a exclusão social. A falta de amor alimenta-nos abundantemente o ego. São elevadas as torres que nos miram, grande a nossa civilização, mas a miséria está junto ao solo e é contínua. A incoerência de algumas vidas é diabólica, alimenta-se da sobriedade, das realidades construídas com sustento na ignorância das tradições não raciocinadas, fruto de uma parca inteligência rude mas evolutiva. Somos apenas um reflexo de vidas passadas. Todos os momentos construídos no agora, constituem a semente para o amanhã, assim o é, porque já o foi antes.


Ó sombra que me persegues
Vida que me agitas
Pensamento que se quebra
Na esperança que desvanece
A Solidão que se avizinha
Existência marginal


Rio Maior, 1 de Dezembro de 1985
Caldas da Rainha, 23 de Outubro de 2015


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