06/02/2017

- Ensaio - Parte 2

















- Ensaio - Parte 2 /Parte…

Chegara a hora mais emotiva. Ramon conseguiu reunir à sua volta os amigos de diversas gerações. Sabia que apenas iria ser depositado na terra a matéria em processo de decomposição. Pela última vez pudemos observar o seu rosto sereno, como o era em vida. Naquele momento de introspecção, sentíamos um ambiente extraordinariamente sereno. A sua presença não era a do corpo, mas a do espírito que nos envolvia a todos, enquanto assistíamos ao sepultamento do caixão. Ninguém derramou lágrimas. Ele não queria lágrimas, dizia que elas fariam falta noutras circunstâncias da vida. Enquanto assistia ao lançamento das pazadas de terra, observei que Verónica me observava pelo canto do olho. Disfarçou, mas não pude de me aproximar dela e dirigir-lhe parcas palavras de ânimo. Afinal quando nascemos temos todos uma certeza, é de que morremos um dia. Alguns de nós compusemos a campa com os diversos ramos de flores. 

Sai do cemitério, peguei no carro e fui em direcção à casa do Ramon. Tinha que tratar dos peixes do enorme aquário, e do quatro gatos persas. Agora tinha um problema em mãos. Quem cuidaria das coisas do Rámon, se não lhes conhecíamos família. Era preciso arranjar um advogado para tratar do assunto, e lembrei-me de uma colega que andou comigo no secundário em Óbidos e que agora exercia advocacia numa multinacional ligada às pescas na Peniche. Era sobejamente conhecida, porque estava casada com o Ministro da Justiça, além disso era muito assídua na televisão. Éramos muito amigos, confidentes até, Só que ela seguiu para Coimbra para se formar em Direito e eu fui para Lisboa para Psicologia. Às vezes falava-mos por telefone e agora mais recentemente pelo Twitter. Convidara-me para ir ao casamento, mas nessa altura estava na Tailândia, onde tive cerca de seis meses a fazer um trabalho de investigação. 

Foi no comboio que conheci Verónica, nas milhentas viagens a partir de Caldas da Rainha. Ela entrava em Torres Vedras, e quando descobrimos que estudava-mos na mesma faculdade, passamos a encontrar-mos muitas vezes, apesar de ela já estar no 2º Ano de Psicologia. Mas felizmente apanhava-mos a mesma carruagem que nos trazia todos os dias à tranquilidade do litoral rural. A cidade de Lisboa, não era para mim, muito agitada, muito stress. Foi assim durante cerca de cinco anos. Ao fim de um ano começamos a namorar, foi nessa altura que conhecemos Ramon em Óbidos num workshop sobre meditação. Foi aí que nasceram os nossos laços de amizades. A nossa diferença de idades, fazia dele um pai que eu nunca tivera. Muito perceptivo, ele sabia de todas as minhas necessidades, era muito intuitivo. Foi graças a ele que evitei um suicídio que andava na minha cabeça a algum tempo. Andava a ser fulminado por um elemento da família que reclamava valores patrimoniais ligadas ao meu pai, que só conhecera em criança. Mas a droga e outros crimes, pusera-o atrás da grades. Apanhara pena máxima. Matara um padre, por este não lhe permitir a confissão. Fora ali em pleno confessionário que sacou do canivete e degolou o padre ali mesmo, e antes de abandonar o local, arrancou uma cruz da parede e colocou-a em cima do peito do corpo estendido a derramar sangue. Ainda teve tempo, fora da igreja dirigir-se a uma cabine telefónica e fazer uma chamada anónima para a GNR. Quando esta chegou já ela tarde, o padre estava morto e bem morto. O canivete ficara ao lado da cabeça e era a prova mais que evidente do crime.

6Fev17 (continua)
João Eduardo @

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