09/02/2017

Ensaio - parte 3 -
















Verónica aproveitou a manhã e foi até ao mercado da fruta nas Caldas da Rainha. Já não o fazia a algum tempo. Gostava de regalar os olhos pelo colorido das frutas, das hortícolas. E o pão, que cheirinho, acabado de cozer na última madrugada. As vendedoras cheiravam a campo, esse campo que não conseguimos plantar no hipermercado, onde tudo está alinhado. Parecem batalhões de militares prontos para uma guerra de consumidores fanáticos e sedentos de consumo. Quando se preparava para pegar numas laranjas, aparece-lhe a tocar o ombro uma amiga recente que conhecera através de Ramon. Era a Alice. Já não a via a algum tempo. Tivera refugiada em Coimbra durante uns tempos, e acabara de chegar e ali estava para se abastecer dos produtos frescos para a casa. Soubera da morte mas não pudera estar presente por via de uma consulta pós-operatório a uma catarata na vista esquerda. Estava tudo bem, menos a dor que sentiu quando um amigo em comum, o Jonas lhe comunicou pelo Facebook da morte do amigo. Mas fazia questão de ainda naquele dia ir depositar uma coroa de flores na campa.  Alice era dirigente de uma Associação Espiritualista no Cadaval, que o Ramon frequentava. Até dera algumas palestras, mas depois afastou-se, porque um dos dirigentes da Direcção da Associação lhe disse que as palestras não se enquadravam no tipo de filosofia que ali era defendida. Para além disso ele dava formação de Reiki e Yoga em Óbidos. Era questionável, mas o que tinha a ver com essas múltiplas disciplinas que só engrandecem o espírito e fortalecem o corpo humano. O que uns não querem outros, desabafou a Alice, porque achara que esse afastamento era injusto e até o declarou aos restantes membros da Direcção de que também fazia parte. Ramon era um exemplo de um ser humano de excelência onde a bondade era o expoente do seu relacionamento com os outros. Ele era o porto onde muitos ancoraram, não pedia nada em troca, apenas respeito e simplicidade. Lembrava-se que uma vez num retiro espiritual na sua casa junto á Lagoa de Óbidos, sentiu a presença do seu filho, Edgar  que falecera cinco anos antes num acidente de bicicleta. Era comum sonhar com o Edgar. Mas naquele dia foi maravilhoso, sentiu o abraço envolvente, que só mãe sabe caracterizar. Foi uma experiência maravilhosa, que guarda até aos confins da eternidade. Ramon uma vez disse-me que o Edgar estava agora noutro plano preparando-se para descer à Terra numa aldeia muito pobre na Índia… 

9Fev17 (continua)   Parte 3 /Parte…

João Eduardo






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