02/02/2017

Ensaio



Ali estava eu a olhar para o meu passado. Passaram meses do fim da nossa relação. Ainda sentia no silêncio dos meus sentimentos um vazio por preencher. Vitória ainda ocupava a maioria dos meus pensamentos. A vida não se tornara fácil depois da nossa separação. Não passara de um equívoco, que ambos não queríamos assumir. Nas relações constituímos âncoras uns dos outros.  Raramente nos encontramos nos últimos tempos, mas com um universo de amigos semelhantes, sempre tiveram o cuidado de nos encontros não estarmos presentes em simultâneo. Seria uma sombra que pairaria no ambiente. Não nos sentiríamos bem, sem desviar o olhar constante de um para o outro e recordar momentos que à partida não haveria espaço para repetir, apesar de sabermos ambos que o desejaríamos, nem que fosse em sonho. O nosso olhar denunciava o desejo. Desta vez, quis o tempo que estivéssemos juntos. Um amigo em comum tinha falecido. Não era um amigo qualquer, é daqueles do coração, que não sendo de família, mas é muito mais do que isso. Vitória estava profundamente triste, de rastos até. Eu também estava, refugiava-me na penumbra da sombra para enxugar as lágrimas durante o acto do velório. Ramon, noventa e cinco anos, nascera na Venezuela, mas desde o dez que vivia na região de Óbidos. Os nossos caminhos cruzaram-se pela via das tertúlias literárias mensais no castelo. Mas foi na pintura que Ramon era deslumbrante. Os inúmeros serões na sua casa à beira da Lagoa de Óbidos era a sua musa de inspiração permanente que decoravam as paredes da sua casa e um pouco por todo o mundo. Não tinha família chegada, estava lá longe no país que deixara em criança, que nunca visitara. Fora adoptado, mas os seus pais adoptivos à muito que tinha falecido num acidente de automóvel no dia em que comemorava o seu décimo oitavo aniversário. Desde aí vivia por sua conta e risco. Vivendo da enorme fortuna que os pais lhes deixaram, sempre soube dar uso investindo na sua formação. O seu curso de belas artes fora bem-sucedido, com reconhecimentos nacionais e internacionais de mérito. Nunca constituiu família, porque ao longo da sua longa vida os seus amigos era a sua família. Nós éramos especiais, era comigo e com a Vitória que desabafa. As suas confidências, demonstravam a essência de um ser humano muito especial. A sua partida era um vazio profundo das nossas existências. Vitória sofria, tal como eu, a ausência de uma das peças fundamentais nas relações humanos. Profundamente humanista e espiritualista, sabia-mos que Ramon estaria no plano espiritual em paz. Fora uma pessoa de paz. Fomos uma família para ele, talvez os filhos que ele ambicionava ter. Quem sabe se num dos trechos das vidas passadas ou num projecto espiritual futuro. O nosso mundo de afectos era alimentado pelos inúmeros passeios diurnos e nocturnos nos caminhos e matas que bordejam a Lagoa de Óbidos. Tantas vezes pela madrugada fora contávamos milhentas estrelas que se reflectiam nas águas tranquilas da lagoa, imaginando quantos mundos, quantas realidades lá longe atingíveis apenas pela imaginação. Ali ficávamos por vezes ouvindo os murmúrios das águas, a observar o saltitar dos peixes à tona de água. Tantos sonhos ali plantados…

(continua)
   
João Eduardo




Sem comentários:

Enviar um comentário