07/02/2017

Fátima, milagres da Fé…














Fátima, milagres da Fé…

Fátima tornou-se um Santuário. Um local que vende latas com ar de Fátima, vende saquinhos com terra de Fátima, vende garrafinhas com água de Fátima. E que mais vende? Milhentos santos de fé, para todas as mazelas e circunstancias. Fica lá atrás no tempo que o povo esfomeado de fé se dirigia em penitência pelos caminhos que levavam até ao Santuário. Não importava como chegar, era preciso chegar, nem que fosse de rastos, porque a fé era mais importante. Pelas estradas, pelos carreiros, ficaram marcadas no tempo milhares de passadas, muitas delas repetidas durante anos e anos com o fim de chegar e regressar posteriormente ao aconchego do lar com o dever cumprido e enfrentar novamente a dureza da vida, da pobreza que durante anos e anos Portugal teve mergulhado. Com o 25 de Abril de 1974, a aurora despertou, o país foi invadido de ar fresco, o negro foi substituído pelo colorido da nova aurora. Com ele vieram novos credos, novas filosofias, novas religiões, dissidências, outros interesses que se perdem nos corredores da política e da religião. Outros ventos se levantaram. A Igreja que antes era poder, foi cedendo caminho muito à custa da nova dinâmica dos Papas. Era preciso renovar a mensagem da Igreja, adequa-la aos novos tempos, aos novos paradigmas da ciência. Era demasiado evidente que a mensagem lançada nos altares não respondiam a inúmeras questões da fé. Era preciso responder ao que estamos aqui a fazer, de onde viemos. No fim de morrermos acontece algo mais? No passado era fácil resolver essa questão, os chamados doutores da Igreja e, os seus carrascos encarregavam-se de acender fogueiras e queimar vivas os proletários da fé. Agora diz-se que são cada vez mais os estratos sociais elevados, gente bem formada com elevados graus académicos, do mundo da finança, do Futebol que corre para Fátima, dando graças às fortunas que obtém extorquindo riqueza à custa de mão-de-obra barata num país que não sai do vale desencantado. Andamos assim à séculos, mas a culpa é sempre do povo ignorante que só quer saber de futebol, e se junta em tabernas afogando as mágoas no álcool e asfixiando-se lentamente no fumo tóxico do tabaco. São evidentes as marcas de automóveis de elevada cilindrada que ali se deslocam. É fácil. Os tiranos do poder, que tudo querem e podem até projectaram que a auto-estrada ali passasse, não fosse Fátima ficar no centro de Portugal. Os rodos de dinheiro e outros valores que ali rolam, dão jeito para alimentar os pobrezinhos de Portugal. É assim à Séculos. São sempre os mesmos, e porquê os mesmos? Só porque perdemos a capacidade de raciocinar. Fátima é um ponto fundamental do circuito internacional da religiosidade Mariana. Já passei por Lurdes e Santiago de Compostela, apesar de cada uma ser bem distinta, encontro em Fátima o sofrível da paisagem. Ninguém vai ali para ver edifícios belos, porque a desordem imobiliária é tão grande, que faltou mérito aos responsáveis no passado de fazer algo mais belo e tranquilizante. Em Fátima a única coisa bela é mesmo a Capelinha das aparições, a antiga. A moderna foi para satisfazer as necessidades estéticas. São os milhares de turistas que por ali passam que dão grandiosidade ao espaço. As esmolas vão alimentando o negócio do imobiliário. Às vezes ponho-me a pensar de que se alimentam os residentes em Fátima. As lojas de souvenirs são tantas, que me bastam para dar resposta à minha inquietação. Quando vejo na comunicação social, diversidade de artigos sobre Fátima, dá-me pena, às vezes intranquilidade plena em pensar que Jesus no cima da sua simplicidade deveria vir novamente à Terra dar novamente lições de nobreza social e puxar as orelhas ao Clero que se foi reinventando ao longo de séculos de acordo com os critérios de orientação do poder absoluto. É preciso estar na berlinda para não se perder privilégios. Descubro no Papa Francisco a vontade absoluta de derrubar todos os preceitos materiais de que a Igreja vive, tanta pomposidade, para quê? 
O turismo religioso tem muito que se diga. Hotéis com SPA, quanto baste em troca de uma boa maquia. Segundo a Revista Visão em 2015 na região de Fátima 70% das dormidas eram de estrangeiros numa oferta de 730 mil dormidas. Mas os números serão mais de um milhão, tendo em conta que casas religiosas e apartamentos particulares não entram nestas estatísticas. Traduzindo estes números, ficam por contabilizar os milhões que ali ficam, mas não é preciso ser académico para fazer uma regra três simples para se chegar a uma conclusão objectiva. Muitos milhões isentos de impostos? Não sei, talvez sim, talvez não. O Governo de Portugal autorizou o ajusto directo para obras até 5,1 milhões de Euros em Ourém, por causa da vinda do Papa. Em tom de ironia, quando vier Trump a Portugal, se alguma vez vier, quanto vamos gastar para as medidas de segurança de um tipo que até é Presidente dos Estados Unidos que todos odiamos por ser um digno representante de um grupo de empresários que se está maribando para os problemas do mundo, só lhes interessa os lucros e a escravidão. Mas é o Papa, por quem tenho um enorme respeito e afeição, porque sendo um homem de fé que nos ensina a amar pelo exemplo e dedicação ao próximo, sobretudo os que estão mais carentes. As obras em Fátima são mais que muitas, é preciso que as poucas horas que o Papa está em Fátima tenha a nobreza da ocasião. É assim em todo o lado no mundo religioso e político, só falta estender a passadeira vermelha em cima dos excrementos do resto do ano. Pasme-se que para além do produtos que enunciei no inicio desta reflexão, para além das bugigangas encontramos o perfume 13, inspirado nas aparições, cuja fragrância é uma homenagem à inocência, com aromas do campo sob a sombra de uma azinheira, com o custo de 20 euros, cuja receita em parte vai para a construção de um hospital pediátrico em Coimbra. A imagem do Papa em gesso com 65 cm pode custar 95 euros, lenços para saudar o Papa, 1,50 euros. Claro que com isto encontramos cascóis da Selecção Nacional, bonecos diversos que nada tem a ver com o símbolo de Fátima, amuletos entre outros artigos. Até budas! Comentários? É escusado, as evidências deste tipo de fé são demasiado violentas para o meu raciocínio. Que bestas nos tornamos, sem um pingo de vergonha em encontrar-mos para as nossas vidas, caminhos eticamente diferenciados, na busca do homem integral. Perdemos demasiado tempo a pedir responsabilidades a terceiros, quando é a nós que cabe o caminho e a descoberta do derradeiro.

@Este texto de reflexão tem como ponte de partida referência ao um artigo da responsabilidade de Miguel Carvalho publicado na Revista Visão nº1247 de 26 de Janeiro de 2017. Números e factos aqui relatados foram compilados da revista.

Em virtude deste texto de reflexão ser da minha inteira responsabilidade, traduz o que penso no tempo presente sobre o assunto, pelo que não responderei a comentários, quer sejam eles positivos ou negativos. Vivemos num tempo em que as atitudes ficam por conta de cada um. Ainda vivo num país livre que se chama Portugal. Ainda.

06Fev2017(Continua) -João Eduardo-


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