15/03/2017

A prece e/ou oração



Este texto tem como base um artigo intitulado “Intolerância ou desconhecimento”, de Eugénio Marques, onde é desenvolvida a questão da prática em alguns núcleos espíritas, da oração “Pai Nosso” e “Ave Maria”. Foi ponto de partida para pegar em algumas das suas apreciações e juntar de alguma forma o que penso também sobre o assunto com o que tenho aprendido e visto nos últimos anos desde que me tornei estudioso do Espiritismo. Sendo o assunto pertinente para alguns espíritas, não o deveria ser, porque a Doutrina Espírita não tem pertinência nenhuma, e se a têm, é porque temo que continuar a estudar a partilhar ideias, que é coisa que muito falta ao movimento espírita tão preocupados que estão com as suas quintinhas espirituais e com as suas manobras doutrinárias. 

O patamar evolutivo da humanidade tem ao longo dos tempos evoluído para melhor, permitindo melhor raciocínio, estudo e entendimento para as questões mesmo as de âmbito espiritual que algumas décadas eram classificadas como milagrosas, extraordinárias ou demoníacas, por quem sobre elas tinha interpretações díspares e contraditórias. Para alguns núcleos do movimento espirita em Portugal, é controverso o entendimento à volta da necessidade e prática das orações, quando inclusive o “Pai Nosso” é excluído ou pouco citado nas casas espíritas, por ser característica da religião dominante, ou seja na Igreja Católica. 

Existe em muitas dessas casas espíritas, uma certa alergia aos cânticos e preces, com críticas infelizes aos dirigentes dessas casa espíritas, que decidem nas suas actividades espirituais a introdução da oração da “Ave Maria”. Só revelam com essa atitude, falta de caridade e desconhecimento do Evangelho de Jesus, e sobretudo da obra básica de Allan Kardec. Dizem esses mesmos dirigentes espíritas, que a referida oração é exclusiva e tradicional da Igreja Católica. 

Reflectindo sobre este procedimento tão melindroso para alguns que se acham sabedores exímios da Doutrina Espírita, e dos procedimentos que a mesma deveria tomar nas casas espíritas, a oração “Ave Maria” na sua essência, não deixa de ser um hino à paz, um hino ao carinho e ao agradecimento a Deus, ao recordar a maternidade daquele que foi a mãe de Jesus, modelo e guia não só para os cristãos em geral, mas também para os que se consideram cristãos e seguidores da Doutrina Espírita e também para a restante humanidade que respira nas suas atitude o amor e a abnegação ao próximo. É uma questão universal.

Com exclusivos dominantes por parte desses espiritas dirigentes, que não deveriam ter esse título, mas sim semeadores da paz e da tolerância, ser mais um entre os trabalhadores, a oração da “Ave Maria” não deixa de ser uma oração belíssima que todo o crente pode, e deve soletrar cada frase de maneira que mais o toque, é uma forma de entrar em contacto com os Benfeitores espirituais pedindo, agradecendo ou louvando a sua atitude e ajuda espiritual. Também nos ensina a Doutrina Espírita, nas suas máximas que devemos respeitar a opinião dos irmãos de outros credos religiosos, que deveria ser sempre livre no entendimento do que é a liberdade de arbitrarmos os nossos pensamentos, sentimentos e actos, conforme estabelece a questão 843 do Livro dos Espíritos, que relembro: O homem tem livre arbítrio nos seus actos? A que os espíritos responderam, - Pois se tem a liberdade de pensar, tem de agir. Sem o livre arbítrio o homem seria uma máquina. 

Continuamos a apreciação da prece, seja ela cantada, falada ou pensada. Analisemos o Livro dos Espíritos, na questão 656, - A adoração em comum é preferível à adoração individual?, resposta: - Os homens reunidos por uma comunhão de pensamentos e sentimentos têm mais força para atrair os bons Espíritos. Acontece o mesmo quando se reúnem para adorar Deus. Mas não penseis, por isso, que a adoração em particular seja menos boa; pois cada um pode adorar a Deus, pensando nele. Na questão 658, - A prece é agradável a Deus?, resposta: - A prece é sempre agradável a Deus, quando ditada pelo coração, porque a intenção é tudo para Ele. Aprece do coração é preferível à que podes ler, por mais bela que seja, se a leres mais com os lábios do que com o pensamento. A prece é agradável a Deus quando preferida com fé, com fervor e sinceridade. Não creias, pois, que Deus seja tocado pelo homem vão, orgulhoso e egoísta, a menos que a sua prece represente um acto de sincero arrependimento e de verdadeira humildade. Na questão 659, - Qual o carácter geral da prece?, resposta: - A prece é um acto de adoração. Fazer preces a Deus é pensar n´Ele, aproximar-se d`Ele, pôr-se em comunicação com Ele. Pela prece podemos fazer três coisas: louvar, pedir e agradecer. 

Vamos agora ao Evangelho Segundo o Espiritismo. No Capítulo XXVII (Pedi e obtereis), é todo ele um manancial de informação acerca da prece. Fala-nos das condições da prece, da eficácia da prece, acção da prece, transmissão do pensamento, preces inteligentes, da prece pelos desencarnados e espíritos sofredores, das instruções dos espíritos acerca da prece, modo de orar e a ventura da prece. No capítulo XXVIII (Colectânea de preces espíritas), destaca-se a oração dominical do “Pai Nosso”, onde se explica cada uma das suas diferentes fases. No preâmbulo deste capítulo, é sugestiva a seguinte passagem: “A principal qualidade da prece é a clareza. Ela deve ser simples e concisa, sem fraseologia inútil ou excesso de adjectivação, que não passam de meros ouropéis. Cada palavra deve ter o seu valor, exprimir somente assim pode atingir o seu objectivo, pois, de outro modo não passa de palavrório. Veja-se, entretanto, com que distracção e volubilidade elas são preferidas, da maioria das vezes. Percebemos que os lábios se agitam, mas, pela expressão fisionómica e pela própria voz, percebe-se que é um acto maquinal, puramente exterior, de que a alma não participa. Allan Kardec, lembra-nos ainda através do Evangelho Segundo o Espiritismo, que “Os Espíritos jamais prescreveram qualquer fórmula absoluta de preces. Quando dão alguma, é apenas para fixar as ideias e, sobretudo chamar a atenção sobre certos princípios da Doutrina Espírita”.

Voltamos ainda á questão da oração “Avé Maria” ser prática das actividades de algumas casas espíritas, Allan Kardec, lembra-nos que “Quem quer que lance anátema às preces que não estejam no seu formulário provará que desconhece a grandeza de Deus”.

A comunidade espiritual superior através das suas mensagens esclarecedoras, adverte-nos para a vigilância, discernimento dos nossos pensamentos íntimos, das palavras que nos saem da boca para fora, com que intenção e também como agimos no nosso lar e na comunidade. O Espiritismo, como ciência universal, não é, nem será propriedade exclusiva deste ou daquele, mas sim de todos de igual modo, que com ela queiram ser diferentes nas acções, nas atitudes, nas coerências. Por isso é necessário estudo, flexibilidade, para que não surgem doutores e professores que ao pegar na Doutrina Espírita encontram uma oportunidade oportunista           de serem os “Césares” de vidas passadas com seguidores fanáticos da ignorância, sem se questionarem sobre a liberdade de pensamento, que as questões espirituais solicitam. A casa espírita como outros locais de fé, é uma casa de Deus, onde se lembram, esclarece-se as leis divinas, orientações espirituais que dizem respeito à terceira revelação divina a quem Jesus se referia quando prometeu o Consolador, o Espírito de Verdade. 


Texto de JE, Caldas da Rainha, Portugal, em 2017-03-15
Bibliografia:
Intolerância ou desconhecimento, de Eugénio Marques - Jornal Espírita nº399/Março2017- União Espírita Cristã – Viseu/Portugal
Livro dos Espíritos, Allan Kardec, 7ªEdição(2004) – Edição Comemorativa do Bicentenário 1804/2004. Tradução de J.Herculano Pires. Edição do Centro Espírita «Perdão e Caridade» - Lisboa.
O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, 10ªEdição(2003). Tradução de J.Herculano Pires. Edição do Centro Espírita «Perdão e Caridade» - Lisboa.




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