11/05/2017

Homem velho





















Encontrei um velho amigo de armas ao fim da tarde. Trabalhamos juntos na mesma repartição por cerca de dois anos. Por contingências da vida, teve que se deslocar para outra região por imperativos familiares. Agora passado este tempo duradouro, regressa à região que o vira nascer, mais velho, com um filho criado, mas a esposa tinha partido prematuramente por doença oncológica. Os diversos acontecimentos da vida são estas mesmas, vitórias, derrotas, e segue-se em frente com a mira de dias melhores. Agora a viver a aposentação, dedicava-se nos tempos livres à leitura, à pesca, ao jardim e à horta lá de casa. Confessou que estava desiludido com a sociedade, sobretudo nos homens em geral que tudo fazem para denegrirem a convívio salutar do colectivo, onde existe falta de sinceridade, fraternidade e de responsabilidade. Partilhando da mesma opinião, lá fui dizendo que a sociedade está composta de homens velhos agarrados a preconceitos, velhas tradições retrogradas. Dizia esse meu amigo que estava na realidade chateado por existir pessoas que em vez de se preocuparem com o conteúdo das coisas, estão sim radicados com as formas e fórmulas jurídicas copiadas da velha sociedade a que estão agarrados. Isto a propósito de um convite que tivera para fazer parte de um grupinho que pretende dedicar-se à dinamização cultural da sua velha aldeia onde nascera. Filho da terra, conhecia bem aquelas gentes escassas em juventude, ainda assim suficientes para ir com aquele projecto para a frente. Sem dúvida que alguns estão agarradas ao passado, querem continuar a ter influencia onde sempre viveram, esquecendo-se que existe todo um colectivo. O suficiente para deitar um projecto abaixo por causa de teimosias jurídico administrativas. Para isso já temos os partidos políticos, e outras organizações liberais. Como elas são formadas por homens, teimam em contaminar com os mesmos e velhos princípios. Temos que alterar tudo isso, dando iniciativa aos cidadãos isentos dessa contaminação para construírem algo diferente e profícuo. Sabes, disse-lhe eu, é preciso paciência e diplomacia, mas também temos que dar a entender se estão de alma e coração no projecto, tem que substituir as velhas ideias. Se assim não for, então não vale a pena estar a condicionar o trabalho daqueles que tem vontade de continuar a fazer algo de diferente. E ali ficamos a conversar sobre acontecimentos deprimentes emanados da globalidade que nos traz dia a dia um futuro cada vez mais incerto. Rapidamente a noite chegou, e cada um de nós seguiu à sua vida com a promessa de nos voltarmos a encontrar. No caminho surgiu-me uma frase que lera de manhã num livro: “O homem que se decide a parar até que as coisas melhorem, verificará mais tarde que aquele que não parou e colaborou com o tempo está tão adiantado que já não poderá ser alcançado”. Não é que faz sentido! Seguimos adiante…

11:05:2017 João Eduardo



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